sobre anjos e pássaros

 

 

 

Pulei a onda e desejei que os caminhos se abrissem. Um dia, muito antes disso, uma desconhecida me disse “para de perguntar porque você não tem o que quer e agradece por tudo de ruim que é tirado do seu caminho. Tenha paciência, que vai acontecer, você vai ser mãe”. Aqui temos duas lições, uma sobre gratidão e outra sobre tempo. Pra mim, lições ainda em curso e, provavelmente, sem conclusão prevista. Ah, e temos também o susto de uma pessoa que nem te conhece, saber de algo tão íntimo sobre sua vida. Ela até me pediu desculpas pela bronca e disse que só estava passando o recado. Daquele puxão de orelha, não se passou muito tempo e logo ele chegou, meu primeiro presente, meu anjo Rafael. Foi a redescoberta da inocência, a volta da infância. Aquela fase onde somos personagens otimistas de um desenho animado e as chateações passam na próxima brincadeira.

Na colcha da minha vida, tem retalhos de acasos e outros cuidadosamente cortados, estrategicamente posicionados. Como diz o Rafa “tem um moço contando nossa história, mamãe!”. Meu filho acredita que nossa vida tem um narrador e isso me encanta. Talvez porque minha cabeça era muito parecida com a dele, quando criança e também porque eu acredito na sincronicidade. Essa relação de significado entre as coisas, que dão à nossa vida o tom de uma narrativa, com encaixes perfeitos, ainda que aparentemente tardios.

Antes de tudo isso, lá na minha lua-de-mel, fui apresentada à palavra Moana. Era parte de um lugar que habitava meus sonhos e só descobri o nome, quando o sonho se realizou. Num retalho muito bem tecido e bordado, esse nome voltou à minha vida. Agora num filme de animação, que já assisti um número obsceno de vezes. Nesse ponto da história, o narrador do Rafael daria ênfase ao nome do filme “Moana” e explicaria que é o mesmo do hotel que ficamos na lua-de-mel. A ironia, a princípio, está no fato de que não haveria razão alguma pra gente ver esse nome de novo, a não ser quando o assunto fosse aquela viagem.

Pois bem, Moana já é uma das palavras mais faladas aqui em casa, tropeço ou sento na cabeça da boneca quase todos os dias. Por isso, a associação com o nome do hotel já é mesmo coisa de um passado de quase 10 anos. Acontece que, as coincidências não acabaram e, na trilha sonora do filme, tem uma música que diz “te manulele e tataki e” no trecho cantado num dialeto da Polinésia. Olha o bordado da minha colcha aí, Manu e Lelê, os dois outros seres que vieram ajudar o Rafa na difícil tarefa de me tornar alguém melhor.

Depois do Rafa, eu já previa certa dificuldade pra engravidar, então no mar, oceano ou “Moana”, lancei meu desejo de ser mãe mais uma vez. Quando pulei aquela onda, não sabia como o meu pedido, da água, chegaria ao céu, imaginei que o trajeto seria longo, duraria pelo menos um ano e teria alguns obstáculos, mas foram exatos 30 dias. Apontaram no horizonte as minhas meninas, Manu e Lelê, ainda grudadinhas, sem mostrar que eram plural. Por conta da música descobri que, juntos, os nomes “manulele” significam “pássaros em vôo” ou “espíritos livres”. Esta é só uma história de “coincidências” e de como eu aprendo todos os dias a ser grata por ter dois pássaros e um anjo. Três seres alados, que chegaram à minha vida no tempo certo e são meus retalhos preferidos.

Anúncios

longe do ninho

Dia desses minha cunhada, com quem eu falo quase todos os dias, me perguntou se era verdade que eu ia viajar. Respondi pra ela rindo, confirmando a informação. Fiquei pensando “como a Mari não sabia sobre a viagem?”. Claro que ela não sabia. Não contei. Não foi por falta de oportunidade, não foi por falta de entusiasmo, não foi nem uma escolha pensada. Eu apenas não falei e isso era estranho.

A viagem foi um convite, que despertou uma vontade, que virou uma oferta, que resultou num sim. Minha prima chamou, eu achei sem noção. O Fê achou possível, tive um delírio e concordei. Depois de comprada a passagem, em vez de planejar a viagem, eu só pensava em tudo que as crianças estariam fazendo e eu não estaria por perto. Não seria uma viagem em família. Eu pra um lado, eles pra outro. Tipo férias da maternidade, se é que isso existe. Menos de um mês e eu só conseguia pensar na mala deles. Não pode faltar roupa, protetor solar, o antialérgico… será que elas vão reagir à alguma coisa? As boias do Rafa. Conversar com ele sobre o mar, sobre ficar perto do pai, sobre como vou pensar nele em cada segundo que a gente estiver longe um do outro.

A pergunta da Mari me fez perceber que eu estava me boicotando. Sentindo uma  culpa que eu mesma, no discurso, abomino, mas na prática, não soube lidar. Se qualquer das minha amigas dissesse que viajaria e o filho ficaria com o pai, eu daria o maior apoio. Diria “vá, você merece esse tempo pra você”. Mas não fui capaz de enxergar que tenho essa mesma necessidade. Não de ficar longe deles, mas de ter um tempo só pra mim. Há semanas o Fernando me perguntava, “já fez seu roteiro”? Eu respondia que não e sentia o nó na garganta.

Uma semana. Insônia. A mãe de três estava covarde. Há seis anos que vivo a maternidade numa entrega plena e sem arrependimentos. Agora estou realinhando o olhar, pra enxergar 0 que eu sou além dos filhos e essa viagem talvez seja um passo prazeroso e necessário nessa redescoberta. Coração encolhido, ar passando em suspiros. Pensamentos com velocidade irregular e sem tempo verbal definido. Cabeça vai e volta, peito estufa e lá vem mais um suspiro.

Ter filhos é criar uma via de mão dupla, pra absolutamente tudo. Desde um carinho, até um dedo apontado. Conhecimento, inspirações, cuidado. É uma relação espelhada. Talvez a única que não tenha uma essência competitiva. Os frutos dela estão intrinsecamente ligados às pequenas decisões, tanto quanto às grandes. Tudo que eu desejo para os meus filhos, não pode ser diferente do que eu desejo para mim, mesmo que eles sejam prioridade. É isso que eu espero que eles entendam. Eu desejo a eles minha melhor versão e ela não é definida por todas as horas que passamos juntos, mas por aquilo que fazemos delas. Não é o que eu vejo quando me olho no espelho, mas quem eu sou quando minha cabeça encosta no travesseiro. No fim do dia, de todos os dias, eu serei mãe deles, não importa onde esteja o travesseiro (tem que ter um, porque não durmo sem). Não tem passo atrás, porque sou o que penso, e uma mulher plena é o principal requisito pra ser uma boa mãe. Vou apertar o coração, os olhos e o cinto. 

 

 

 

 

 

 

 

nunca fomos quatro

16931181_1468379729841292_425723249_o

Antes que esse post, que foi escrito há algum tempo, faça ainda menos sentido, melhor publicar.

De 3 pra 5, essa era nossa nova configuração familiar. Por mais desejada que fosse, ter uma grande família exigiu de mim umas boas horas, dias e semanas de reflexão.

A gravidez, apesar de muito bem-vinda, não foi planejada. Ter gêmeas nunca foi uma possibilidade na minha cabeça, pelo menos não sem tratamento. Duvidei de mim, me questionei se conseguiria cuidar de três crianças. Me perguntava “por que eu?”. E a resposta estava ali, exatamente embaixo do meu nariz. O quase impossível já tinha acontecido, uma gravidez espontânea, gemelar e (uma nova palavra pro meu vocabulário) monocoriônica. Ufa! Agora era chocar, depois criar!

Diferente da gravidez do Rafa, não foi fácil. Não foi leve, nem no peso do corpo, menos ainda no da mente. Mas, sem dúvida, especial. Ter duas pessoinhas dentro de você não é mais importante do que ter uma. O amor é o mesmo, a expectativa, os planos. Pra mim, o que mudou foram os medos.

Nunca me senti tão frágil e a consciência dessa fragilidade me incomodou muito. Me desviava a atenção, me impedia de realizar tarefas simples e, principalmente, causava ansiedade e medo. Eu achava que meu corpo não aguentaria, que eu não saberia proteger o Rafa e não conseguiria me dividir em três. Nem toda a experiência que eu vivi com o Rafa, provando que o tempo ajeita as coisas, foi suficiente pra eu acreditar em dias mais fáceis

Mesmo depois do nascimento delas, os medos persistiram e demorou  um tempo pra que eu me sentisse forte novamente, dona da minha vida, no controle do meu corpo e dos meus pensamentos. Reprogramar a vida para a nova configuração também não foi nada suave. Foram trancos, discussões, noites mal dormidas e falta de horizonte.

A parte mais dolorida foi ver o Rafa se adaptar. Como eu pensei que seria, foi. Ele sentiu o tempo compartilhado, o colo indisponível e os olhares que não eram mais só dele. Custou pra eu perceber que tudo isso já era parte do pacote de ter irmãos. Cheguei a me questionar se a minha escolha foi egoísta, porque ter irmãos era o meu desejo. Mas conclui que não. Não me dei irmãos, me dei filhos. Me dei mais responsabilidade, mais gente dependendo de mim. Então se essa for, em algum aspecto, uma escolha egoísta, é talvez naquele em que eu mais acredito sobre ter filhos, o quanto eles nos melhoram. Mas essa melhora não acontece sem esforço, sem entrega, mudança de atitudes, opiniões e posturas. Sim, é um exercício de reinvenção, onde você cria uma versão sua que dê conta das necessidades de cada um, incluindo as suas próprias, que são simultâneas e distintas.

Minha reinvenção não foi tão orgânica. Como cresci em uma família de três, basicamente tive que compilar experiências de relações fraternas que vivenciei na minha vida, mas que não necessariamente eram minhas. Isso é um laboratório em andamento, claro, já que nenhuma mãe antecipa todas as demandas de um filho. Além disso, como filha única, mesmo numa maternidade tripla, uso uma dose bem grande de educação com exclusividade, olhando pra dentro, olhando pra cada um, como se naquele momento, só aquele filho existisse, porque fui criada assim. Fui criada com liberdade de ser eu mesma, de ser única. Afinal, são três, as gêmeas são  “idênticas”, mas cada um é único.

Não é fácil. Como eu já disse, palavras relacionadas à praticidade ou ausência de dificuldade não combinam com gemelares, muito menos com ter três filhos. Acontece que as conjunções estão aí pra gente usar, o “mas”, o “porém”, “entretanto” enfim, dão um refresco. Depois de meses entre sorrisos e lágrimas, criando rotina, lotando o banco traseiro do carro e elevadores, tentando fazer a família caber numa selfie e todos olharem pra foto (ao mesmo tempo), nos adaptamos ao nosso tamanho. Acostumamos com o Rafael vindo pra nossa cama de noite (essa parte já praticamente superada, ufa!), com a infinidade de mamadeiras que dominam a cozinha e a quantidade de comida que temos que ter na geladeira. As crianças já se divertem juntas, já brigam também. Temos a loucura mais saudável nos nossos dias. Ajuda não falta e nós já dormimos relativamente bem.

entre filhos…

Continuação do último post. Demorou, mas…

Começava 2015. Pra mim, antes do carnaval e a vida já estava urgindo. Exames, consultas, exaustão e enjôos, muitos enjôos. Dois ultrassons me mostraram um serzinho, só um serumaninho. Minha intuição teimava e eu dizia – Mãe, se eu não tivesse visto um, jurava que são dois! Meu exame de sangue acusou uma taxa quatro vezes maior que na gravidez do Rafa, na mesma semana. Segui enjoando.

Estava na casa da minha mãe, chega meu primo. Aquela pessoa cética, que mal acredita em horóscopo – Oi prima, sonhei que eram gêmeos. – Pelamor, Thiago, vc subiu aqui só pra me dizer isso? Se forem gêmeos, vou te dar um! – A luz da dúvida acendeu.

Dia seguinte, fui trabalhar, mal bati o ponto, ouço minha amiga dizer – Flá, sonhei que eram gêmeos! – Não, Aninha! Eu já fiz dois ultrassons e vi só um embrião. – Mas em conversa de capricornianas (sim, Aninha, pra mim seu sol está em Capricórnio), os argumentos nunca acabam, inclusive aqueles que você mesmo usa e se voltam contra você – Mas Flá, você disse que tem casos em que um embrião fica escondidinho atrás do outro! Sim, tem esses casos e tem também o caso que eu não tô entendendo porque todo mundo resolveu sonhar comigo! Essa minha amiga é o oposto do meu primo, super intuitiva, quase uma bruxinha. E eu pensando – Mas gente, como vai caber esse tanto de criança aqui dentro?

Tinha também a Madalena. Uma  amiga que desde a gravidez do Rafa já dizia que eu seria mãe de gêmeos. Eu deveria ter começado uma poupança naquela época. Claro que na segunda gravidez ela não desistiu da ideia, então falei pra Madá – se forem gêmeos você será a primeira pessoa pra quem eu vou contar, mesmo que seja de madrugada. Segui enjoando, essa foi minha realidade até a 14ª  semana de gravidez. Até aqui, estávamos por volta da 6ª semana.

Foram mais duas longas semanas de exames e consultas. Descobri a trombofilia que, na prática, me faria aplicar uma injeção de anticoagulante na barriga, todos os dias, até o fim da gestação. Essa parte foi fácil, o difícil era o que acontecia dentro de mim. Eu vivia um conflito gigantesco. Sempre quis ter mais de um filho e de repente não sabia lidar com aquela novidade. Olhava o Rafa e antecipava a carência que ele sentiria do tempo e atenção exclusivos. Eu demorei pra entender a causa da angústia. Até o dia que o Rafa me mostrou alguma nova descoberta e eu senti medo de não estar lá pra ele em cada novo olhar. Eu teria que me reinventar. Filha única, sem referência nenhuma de convivência em família grande. Certeza que a vida me olhava e dizia – Sabe de nada, inocente! 

Num sábado à noite, 8 semanas completas, um sangramento. Pronto socorro, aquela espera agonizante. O Rafa dormia no colo do Fê. A gente se olhava com a aflição de quem está perdendo alguma coisa, sem acreditar. Fui chamada pra sala de ultrassom. A enfermeira tentou barrar o Fê, mas eu não deixei, ainda bem. Foi pro olhar dele que eu corri, quando a médica grosseiramente disse -São dois, né!?” –  eu confusa – Dois o quê? Ovários? Rins? Pulmões? Bebês? – Não, é um só, Dra…. não é!? Eram dois amontoadinhos de células, cada um com um coraçãozinho batendo na tela, na minha frente. Aquilo tudo acontecendo ao vivo, no meu útero!

– Como assim, são  gêmeos? Nessas horas, por mais autoexplicativa que seja a imagem, por mais conexões cerebrais que você faça  e chegue à mesma conclusão, verbalizar é necessário. – Sim, são gêmeos! Nesse ponto a tela já mostrava a resposta pra próxima pergunta, mas perguntei mesmo assim – são idênticos? – Sim, estão na mesma placenta. Eu só tremia. A médica “fofa” disse que não continuaria o exame se eu não parasse. Segurei o chilique enquanto o mundo dava voltas incontáveis dentro daquela sala.

Saimos atordoados. O Fernando estava eufórico, eu estava em choque, sentindo alguma coisa parecida com labirintite. O universo tentou me contar desde o primeiro instante que seriam gêmeas. A moça no pilates, meu primo, minhas amigas, minha cunhada Mari, que é outra quase mãe de santo, mas eu achava que esse presente não era pra mim. Deuses e Deusas da genética decidiram que sim, então, por volta da 1h da manhã de 1º de março de 2015 a Madá recebeu uma mensagem. Éramos, oficialmente, 5.

IMG_0157

Nós 5.

entre fraldas

 

Há pouco mais de um ano eu atravessei o portal para o mundo sem fraldas. O Rafa assumiu a bundinha magra e passou a frequentar vasos em vez de trocadores. Passado o período de cuecas molhadas, veio a surpresa, estava comprada minha passagem de volta ao mundo do “xiiiii, vazou!”.

Num dia quente de janeiro, o Rafael sentou no meu colo e disse “mamãe, tem nenê na sua barriga!”. – Não tem, não, filho! Ele insistiu por mais uma semana.

image

O segundo filho era desejado, mas ainda um plano a médio prazo. Com dificuldades pra engravidar eu já contava com muitos exames pela frente, tratamentos e, com sorte, um positivo. Tudo isso só depois de mudar de casa.

Este é o momento em que a vida te mostra que você não tem o controle de nada e ainda dá uma sapateada na sua cara. Eu voltaria a fazer pilates, mas não parava de pensar no “nenê na minha barriga”. Fiz um teste de farmácia no banheiro do estúdio. Em alguns minutos duas listras me contaram que o Rafael tinha razão.

A recepcionista foi a primeira a saber, porque eu tava branca com cara de nada. Ela deu um gritinho meio sufocado e logo comentou com uma aluna. A mulher olhou pra mim e disse “que legal, minha irmã acabou de ter GÊMEOS!”. – Não moça, só descobri que tô grávida, não tô inaugurando uma fábrica de filhos.

Par de sapatinhos comprado, fui pra casa contar pro Fê que nosso filho era vidente. No caminho eu ria da ironia de todos os tratamentos que fiz pra chegar à primeira gravidez. Mal sabia eu que o bom humor da vida estava só no aquecimento. Outra coisa que eu pensei foi no vinho do sábado e na cerveja do domingo. Um claro sintoma de gravidez, a culpa.

Estava explicada a exaustão e a fome mentira, gosto de comer,mesmo. “Olha o sapatinho que comprei pro nosso filho!” Fernando olha e diz ” – meio pequeno pra ele, não?!” – três segundos pra cair a ficha e… -“Você tá grávida?” – comemoramos e contei pro Rafa, que fez uma cara de mãe-eu-já-sabia. Foi assim que nós três descobrimos que seríamos quatro (só que não).

Continua no próximo post…

mesa para três e o Estanislau

Quando encontramos o Stan, nem prestamos muita atenção nele. Meu primo, eu e meu então novo namorado. Foi numa viagem pra Florianópolis. Discutimos na mesa do restaurante. Uma típica briga de irmãos, acontecendo entre primos. Apesar do barraco de família, o Fernando apostava no romance e não só sugeriu, como nos levou ao mesmo restaurante no dia seguinte.

Escolhemos a mesma mesa. Acho que a comida era boa, é a única explicação pra repetirmos os passos de um dia chato. O Stan chegou pra nos atender, cantando – “a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim…”. Nos olhamos e rimos.

Perguntei – foi você que atendeu a gente ontem? – eu costumo me lembrar. Ele respondeu – Não, mas eu tava aqui na mesa do lado e ouvi vocês dois discutindo.  Acho que eu corei e teria enfiado a cabeça num saco de pão, se pudesse. Olhei pro Bruno e admitimos, sem falar nada, que dois Michelins juntos aumentam o volume do ambiente.

– Me desculpa pela brincadeira. Eu sou o Estanislau, podem me chamar de Stan. Um espirituoso estranho acabava de cravar a bandeira da paz na nossa refeição e salvar o resto da nossa viagem, porque naquela altura, meu primo já pensava em abandonar os planos de ano novo em Floripa. O Stan era ótimo, pediu licença e nos imitou – Eu não quero mais falar com você (esse era meu primo falando) –   Ah, que ótimo! É um favor que você me faz! – essa era eu e minha vergonha virou uma gargalhada.

Aquele foi um dia ótimo, só porque o dia anterior foi péssimo. O Stan contou pra gente como ele era bom fisionomista, falou sobre a vida, sobre como conheceu o Guga-jogador-de-tênis, lá mesmo no restaurante. Nos deu salada de cortesia e estendeu nosso passeio em, pelo menos, uma hora.

Antes de a gente ir embora ele disse – Se vocês voltarem daqui uns 10 anos, não vou me lembrar dos seus nomes, mas vou me lembrar do japonês falante, com piercing na sobrancelha, da moça de cachos dourados  e do moço de olhos verdes com cara de artista. Em mais de dez anos, nunca reencontramos o Stan e algumas coisas mudaram. O japonês não tem mais o piercing, além de namorado, é marido e pai. A moça alisou os cachos, casou com aquele namorado e é mãe. O artista virou anjo e deixou saudade. 

meu dia, o dia todo, todo dia

Por que eu chorei quando descobri que não poderia ir à primeira homenagem de dia das mães na escola do Rafa?

Talvez porque eu tenha vontade de me sentir parte da única esfera da vida dele em que eu fico mais alheia, a escola. Lá ele tem mais autonomia e passa mais tempo sem mim. É ali que ele cultiva grande parte da sua individualidade e processa suas referências. Talvez seja por isso.

Ou talvez seja porque nesse dia, nós mães, temos a certeza de que aquela dança, aquelas palmas, caras e bocas foram ensaiadas pra gente. Porque nos outros dias, mãe faz tudo pelo filho sem se gabar pelo posto. Sente orgulho do filho e não de si. Não espera agradecimento, porque sabe que ele vem em forma de sorriso, de abraço, de segundo prato de comida, de noite bem dormida.

Então, encontrei  na minha maternidade as homenagens diárias que meu filho me presta, desde que o descobri dentro de mim. O primeiro sorriso foi ainda dentro da barriga, agradecendo a hospedagem. Todas as vezes em que o olhar dele me busca como um barco à deriva busca pelo farol. Os bracinhos que tentam me alcançar.  Os dedinhos carinhosos me fazem ter certeza de que minhas orelhas são umas das mais queridas deste mundo.

A calça que não serve mais, a pança estufada depois de comer, os pezinhos que correm desajeitados sem perder a graça. Do sofá, já consigo ver os cachinhos passando do outro lado da mesa… ele cresceu. Está crescendo e eu faço parte disso. É grandioso, é um espetáculo.

A minha maior homenagem é a vida do meu filho. Ser mãe é uma tarefa contemplativa, é prática e, acima de todas as coisas, é aprender que seu amor não tem fronteiras, nem rédeas. A maternidade é, por natureza, empírica. Não há quem a defina com fidelidade sem experimentá-la. É talvez a única condição que não seja desafiada pela expressão “motivo de força maior”.

IMG_3656